LÍNGUA  LUSOFONIA  MEDIATECA  NOTÍCIAS
Textos com a palavra: Mia Couto

A Varanda Do Frangipani: Estreia Nos Viventes

A Varanda Do Frangipani: Estreia Nos Viventes

1Este homem que estou ocupando é um tal Izidine Naíta, inspector da polícia. Sua profissão é avizinhada aos cães: fareja culpas onde cai sangue. Estou num canto de sua alma, espreito-lhe com cuidado para não atrapalhar os dentros dele. Porque este Izidine, agora, sou eu. Vou com ele, vou nele, vou ele. Falo com quem [...]

Inundação

Inundação

Há um rio que atravessa a casa. Esse rio, dizem, é o tempo. E as lembranças são peixes nadando ao invés da corrente. Acredito, sim, por educação. Mas não creio. Minhas lembranças são aves. A haver inundação é de céu, replecção de nuvem. Vos guio por essa nuvem, minha lembrança. A casa, aquela casa nossa, [...]

A Varanda Do Frangipani: O Sonho Do Morto

A Varanda Do Frangipani: O Sonho Do Morto

1 Sou um morto. Se eu tivesse cruz ou mármore, neles estaria escrito: Ermelindo Mucanga. Mas eu faleci junto com meu nome faz quase duas décadas. Durante anos fui um vivo de patente, gente de autorizada raça. Se vivi com direiteza, desglorifiquei-me foi no falecimento. Me faltou cerimónia e tradição quando me enterraram. Não tive [...]

O Cesto

O Cesto

Pela milésima vez me preparo para ir visitar meu marido ao hospital. Passo uma água pela cara, penteio-me com os dedos, endireito o eterno vestido. Há muito que não me detenho no espelho. Sei que, se me olhar, não reconhecerei os olhos que me olham. Tanta vez já fui em visita hospitalar, que eu mesma [...]

Raiz de orvalho

Raiz de orvalho

Sou agora menos eu e os sonhos que sonhara ter em outros leitos despertaram Quem me dera acontecer essa morte de que se não morre e para um outro fruto me tentar seiva ascendendo porque perdi a audácia do meu próprio destino soltei a ânsia do meu próprio delírio e agora sinto tudo o que [...]

Despedida

Despedida

Aves marinhas soltaram-se dos teus dedos quando anunciaste a despedida e eu que habitara lugares secretos e me embriagara com os teus gestos recolhi as palavras vagabundas como a tempestade que engole os barcos porque ama os pescadores Impossível separarmo-nos agora que gravaste o teu sabor sobre o súbito e infinito parto do tempo Por [...]

O homem cadente

O homem cadente

Quando me vieram chamar, nem acreditei: – É Zuzézinho! Estás caindo do prédio! E as gentes, em volta, se depressavam para o sucedido. Me juntei às correrias, a pergunta zarazeando: o homem estava caindo? Aquele gerúndio era um desmando nas graves leis da gravidade; quem cai, já caiu. Enquanto corria, meu coração se constringia. Antevia [...]

Iniciar sessão