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Parábola do Cágado Velho (4)

Colocado por em Mai 31st, 2010 na(s) categoria(s) Fotos, Prosa, Videos. Pode seguir todos os comentários a este texto através de RSS 2.0. Pode comentar ou fazer trackback deste texto

Ulume aproveitou bem aquele tempo de paz. Com a Muari, a primeira mulher, e mais os dois filhos, alargou as plantações. A lavra de mandioca foi limpa, a naka recebeu milho e batata e legumes, o gado multiplicou-se. As tradições foram deitadas para trás e também ele trabalhava nos campos, como as mulheres. A guerra tinha feito esquecer os orgulhos de macho, já não era vergonha capinar e colher. O filho mais velho em breve ia arranjar companheira e podiam produzir mais, para as crianças que nasceriam. As vitelas cresciam, em breve dariam carne e leite. Agora não havia impostos a pagar, ninguém que vinha cobrar-lhes um cabrito, todos os produtos da terra eram para eles. Sim, a paz era boa e parecia definitiva.

a_trabalhocampafrica.jpg Ulume ia a meio da tarde para o cimo do morro contemplar o seu mundo e pensar, enquanto se não dava o instante da paragem súbita do tempo. Pensava no que fora e no agora, nas coisas que tinham mudado. Não havia mais sobas, os brancos tinham acabado com eles. E, sem os brancos, ninguém que mandava agora naqueles kimbos. Tinham ouvido falar dum governo que vivia em Calpe e na capital, lá tão longe, mas nunca tinham visto a cara desse senhor nem ouvido a fala dele. Muitos jovens tinham ido à procura de Calpe, nisso pressentia um perigo escondido. Também os seus filhos? Eles tinham estudado, primeiro numa escola perto do kimbo, depois numa outra, mais avançada e bem mais distante, tinham de andar horas na ida e no regresso. Luzolo, o mais velho, cansou-se depressa. Kanda, o mais novo, continuou nos estudos muito tempo. Também um dia ouviriam a chamada e partiriam para Calpe?

Vinha a angústia da espera e tudo parava. Mais angustiado ficava, temor indefinido. O seu filho Luzolo não ia casar no kimbo por preferir Calpe? Muita gente estranha aparecia, falava com os jovens, depois desaparecia. Que queriam eles? Da única vez que lhes ouviu a voz, foi quando lhe gritaram empurra aí, o carro ficou enterrado na lama. Não pediram nem por favor, deram ordem, malcriados da cidade. Tinha de ter uma conversa com a Muari ou mesmo com o filho mais velho. Esses homens de fora também falavam com ele de outros assuntos, não para empurrar o carro? Diziam segredos que escondiam dos mais velhos ou eram só conversas sobre raparigas?

Ulume só falava o que era preciso. Por isso, mesmo no njango, ao fim da tarde, onde os homens maduros se reuniam para fumar e conversar, ouvia os mais velhos, mas raramente dizia uma palavra. Um dia, a angústia era grande demais e não se conteve, mas que vêm esses estranhos falar com os jovens?

O sekulo Mona respondeu, cuspindo os restos de tabaco:

- Segredo deles. Bem guardado. Mas coisa boa não deve ser. Esta calma é falsa, o perigo está no ar.

Isso também Ulume sentia. E os outros. Os tempos tinham mudado e os mais velhos já não controlavam os pensamentos e os sonhos dos jovens. Alguma coisa boa podia sair dali, daquelas cabeças desmioladas? Alguns tinham andado na escola dos brancos, mas que soubesse, não era o estudo que lhes dava juízo. Decidiu falar com o filho mais velho. Foi à noite, quando estavam sentados à volta da fogueira, depois do pirão. Fez a pergunta.

- Não é nada, pai, são as nossas conversas.

- Mas conversas sobre quê? – perguntou a Muari.

- Só conversas, mãe.

- E donde vêm esses que nos visitam? De Calpe?

- De Calpe e de outros sítios.

O filho mais velho sorria, encolhia os ombros, calmo e reservado, não ia falar mais. Luzolo era como o pai, pouco expansivo.

- Devem ser conversas muito importantes, se vêm de tão longe a partir carros só para falarem com vocês – insistiu Ulume.

O filho mais velho voltou a sorrir aquele sorriso calmo dele, voltou a encolher os ombros. O segundo filho era muito diferente, mais magro, impaciente, sempre pronto para lutar. Esperou que o irmão falasse, olhando-o intensamente. Ao fim do longo silêncio, mexeu-se, levantou-se, proferiu com raiva mal dissimulada:

- Conversas sobre política, pai.

- Cala a boca – ordenou o irmão mais velho.

- É isso, pai – continuou Kanda, o mais novo. – Comigo não falam, pois eu logo percebi que são aldrabões.

- Há outros que vêm também falar contigo e os teus amigos – replicou Luzolo. – Porquê que estás a esconder? Esses não são aldrabões?

A Muari acabou com a tensão, mandando toda a gente dormir. Só Ulume não pegou no sono. Se antes estava preocupado, agora aproximava-se da aflição, não só porque os filhos falavam de coisas que ele desconhecia por completo mas por se enfrentarem nitidamente. E com raiva inequívoca. Que conversas terríveis eram essas que podiam levar os dois irmãos, antes sempre amigos, irmãos de sangue e de mukanda, a olharem-se de maneira tão raivosa?

Havia mais festas nas diferentes aldeias, pois o milho em fartura dava para fazer muita quissangua, bebida de que se alimentam os dançarinos. E eles não perdiam agora nenhuma festa, para se desforrarem dos anos da guerra. Numa dessas noites reparou em Munakazi. Ou antes, nos pés dela que se olhavam, os dedos grandes para cima. E na sua ligeira melancolia.

Pepetela

(continua…)

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