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Quase todas as literaturas se iniciam por obras em verso. Exceptuando as novas nacionalidades resultantes da emigração de Europeus a partir do século XVI, a poesia surge mais cedo do que a prosa literária. Não é difícil explicar este facto: nas civilizações do passado, a mais corrente forma de comunicação e de transmissão da obra literária não é escrita, mas oral. Antes de se fixarem no bronze, na pedra, no papiro, no papel ou no pergaminho, as histórias, as narrativas, e até os códigos morais e jurídicos gravavam-se na memória dos ouvintes; e havia artistas que se encarregavam de as divulgar, os aedos e rapsodos entre os Gregos, os bardos entre os Celtas, os jograis entre os povos românicos medievais. O verso é, inicialmente, entre outras coisas, uma forma de ritmar a fala que facilite a memória, quer esse ritmo se baseie em esquemas de contraste quanto à duração das sílabas (caso do verso greco-latino), quer em esquemas de contraste de intensidade silábica reforçados por aliterações (caso da poesia germânica), quer no isosilabismo, isto é, na regularidade quanto ao número de sílabas reforçada pela rima (caso das literaturas românicas medievais), quer ainda noutras componentes fonéticas. Vestígios desta literatura oral são ainda hoje os provérbios, que, como facilmente se verifica, obedecem a ritmos ou recorrências fónicas que facilitam a fixação. As literaturas românicas medievais apoiam-se, como já notámos, na literatura oral, cujos principais agentes eram os jograis, embora, por via clerical, apreendessem certos temas e lugares-comuns retóricos de tradição greco-romana, sobretudo desde a sua assimilação pelos trovadores corteses (e, na Península, também pelos segréis, nobres de parcos recursos e também, por vezes, instrumentistas).Os mais antigos textos literários em língua portuguesa são composições em verso coligidas em cancioneiros de fins do século XIII e do século XIV, que reúnem textos desde fins do século XII. Mas devemos supor muito anterior a tal época produção verificatória e cantada testemunhado por estes textos escritos. A literatura oral, com efeito, só se fixa por escrito em época tardia da sua evolução, quando as condições ambientes já divergem muito daquelas que lhe deram origem.
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Conhecem-se três cancioneiros ou colectâneas, aliás estreitamente aparentadas entre si, de cantigas de autores diversos em língua galega ou portuguesa. O mais antigo, o Cancioneiro da Ajuda, foi provavelmente compilado ou copiado em fins do século XIII. Os outros, o Cancioneiro da Biblioteca Nacional (antigo Colocci-Brancutti) e o Cancioneiro da Vaticana (com uma variante recentemente descoberta), são cópias, realizadas em Itália no século XVI, a partir de uma compilação que data provavelmente do século XIV.Destes, o Cancioneiro da Ajuda é o menos completo, porque apenas abrange composições anteriores à morte de Afonso X, excluindo, por exemplo, a vasta produção de D. Dinis; e porque o seu coleccionador exclui os géneros mais vulgares, isto é, as cantigas de amigo e as de escárnio ou maldizer, de que adiante falaremos. Mas tem o interesse especial de o seu manuscrito pertencer à própria época da maioria dos poetas seus colaboradores, e é um documento valioso pela grafia, pela decoração e sobretudo pelas iluminuras, que testemunham o carácter cantado e instrumental, embora tenham sido deixados em branco os espaços destinados à notação musical, entre outros sinais de inacabamento.
Os cancioneiros da Vaticana e da Biblioteca Nacional, compilados depois do século XIII, abarcam um espaço de tempo maior, isto é, não só os poetas contemporâneos de D. Afonso III e anteriores, mas ainda os contemporâneos de D. Dinis e de seus filhos; abrangem, por outro lado, todos os géneros de composições, e não só as cantigas de amor. Destes dois, o Cancioneiro da Biblioteca Nacional é o mais completo, pois inclui quase todo o material recolhido no Cancioneiro da Vaticana e muito outro. O Cancioneiro da Ajuda contém 64 poesias não transcritas nos outros dois. Um catálogo do coleccionador quinhentista italiano, Ângelo Colocci, a quem se deve a preservação do Cancioneiro da Biblioteca Nacional, revela-nos que qualquer dos cancioneiros se encontra hoje mutilado. Devemos estar em presença de sucessivas cópias de uma e a mesma colecção, que se iria talvez encorpando; e a fase mais importante da compilação deve ter sido a de certo «livro das cantigas» mencionado no testamento do conde de Barcelos, D. Pedro, filho de D. Dinis (1350). O conjunto abarca cerca de 1680 poesias de cerca de 160 autores identificados, o que o deixa bastante aquém do número conhecido de trobadores provençais (c. 2500), dos trouvères da língua de oil (c. 2390) ou mesmo de outras extensões: Minnesinger alemães (c. 3500).
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O mais antigo dos trovadores conhecidos dos cancioneiros é João Soares de Paiva, nascido cerca de 1140, dois anos após a batalha de Ourique, pertencente, portanto, à geração de Sancho I (a quem chegou a ser atribuída a autoria de uma cantiga, afinal de Afonso X). Isto situa o início da literatura escrita portuguesa conhecida cerca de começos do século XII. É plausível relegar para depois dos dois trovadores mencionados a discutidíssima Cantiga de Garvaia (manto escarlate) de Paio Soares de Taveirós, que os primeiros estudiosos datavam de entre 1189 e 1198. Rodrigues Lapa e G. Tavani aceitam 1196 e outros 1213 como data da mais antiga cantiga (de escárnio) de Soares de Paiva: Ora faz ost’ o Senhor de Navarra. O trovador mais recente é o mencionado conde de Barcelos, falecido em 1354. (Há três autores quatrocentistas tardiamente inseridos na colecção trovadoresca).Os autores pertencem a diversas regiões da Península, e em grande parte viveram e poetaram na corte do rei de Leão e Castela: tal é o caso do rei Afonso X, o Sábio, e dos poetas da sua corte literária, muitos deles portugueses e galegos, que ocupam uma parte importante dos cancioneiros da Vaticana e da Biblioteca Nacional. Não devemos imaginar todos, nem talvez mesmo a maior parte dos poetas dos cancioneiros, no ambiente da corte de D. Afonso III, de D. Dinis, ou da roda de seu filho, D. Pedro, conde de Barcelos, mas sobretudo, de início, em cortes senhoriais galegas e na corte leonesa-castelhana, com o apogeu em Afonso X, o Sábio (1252-1284). O mais antigo jogral conhecido desta corte é referenciado em 1136, sob Afonso VII, e tem o nome de Palha. Na realidade, os cancioneiros não constituem colecções de poesia nacional, mas sim de poesia peninsular em língua galego-portuguesa. Tudo se passa como se ocorresse no Ocidente ibérico uma só literatura românica, mas polidialectal, consoante os géneros, como acontecera com a literatura grega clássica. Devemos acrescentar aos cancioneiros profanos (ou, melhor dizendo, às três versões do cancioneiro profano) as Cantigas de Santa Maria, coligidas na corte de Afonso X e, em parte, da autoria deste rei. São para cima de quatrocentas, com refrão e acompanhamentos musicais conhecidos, alternando séries de poesias narrativas sobre milagres da Virgem com loas (cantigas de loor) que lhe são também dedicadas.
História da Literatura Portuguesa
A. J. Saraiva, Óscar Lopes
Porto Editora







“Vestígios desta literatura oral são ainda hoje os provérbios, que, como facilmente se verifica, obedecem a ritmos ou recorrências fónicas que facilitam a fixação. As literaturas românicas medievais apoiam-se, como já notámos, na literatura oral, cujos principais agentes eram os jograis”. Como agente da divulgação da língua portuguesa através da contação de histórias, ao ler esta passagem fico com outra informação pensando que a literatura oral vinha da narração oral sem se saber a autoria dos conteúdos e a data da sua criação. Como contador de histórias de raíz popular como posso identificar o que conto: Sou um contador de histórias proveniente da narração oral ou da literatura oral?
Fiquei mais confuso, mas apesar disso o seu texto é excelente. Parabéns.
Jozé Sabugo <a href="http://www.horadoconto.com” target=”_blank”>www.horadoconto.com
casadascenas@gmail.com
Olá Jozé Sabugo. Obrigado pelo seu comentário/interrogação!
Este texto foi escrito por dois conceituado linguistas portugueses, A.J.Saraiva e Óscar Lopes. Como deve compreender, eu não sou entendido em literatura nem em linguística, sou simplesmente o dinamizador do site Hoje Lusofonia, pelo que não posso responder à sua interessante questão.
No entanto, embora este tipo de literatura se baseie na transmissão oral ao longo das gerações, daí o seu nome, devemos levar em consideração que muita dessa literatura tem vindo a ser cristalizada e documentada desde que se inventou a escrita. Por isso, embora se continue a chamar oral, porque vem da voz do povo e não dos cânones, ela passou a ser transmitida também através da escrita.
Cumprimentos – Carlos Pereira