1
O Império Romano do Ocidente, que coincidia em grande parte com a România linguística, isto é, com o domínio do Latim como língua de civilização (em vez do Grego, dominante no Império do Oriente), acaba por fragmentar-se politicamente depois das Grandes Invasões do século V. Precipita-se a partir dessa altura o processo de dialectização do Latim falado de que resultam as línguas românicas modernas. Ao conjunto dos falares da România, nessa nova fase de transição, dá-se o nome de Romance ou (Romanço), que vem do advérbio romanice («à maneira românica, vulgar»), oposto a latine («à maneira latina, literária»). A palavra romance (neste caso com a variação de rimance) designa também um género de composição transmitida oralmente, em que pela primeira vez a língua falada ganha forma literária, e constitui o ponto de partida do moderno género literário do mesmo nome. Sempre que aja possibilidade de equívoco, usaremos a forma romanço para designar a fase linguística e rimance para o género poético em questão.A diversificação do romanço acentua-se ainda com a descentralização política feudal, a regressão à economia rural e local dos séculos VIII, IX e X; até que, com o progresso comercial e urbano, com as novas tendências monárquicas centralizadas do século XI em diante, se inicia a unificação linguística de que resultam as línguas nacionais novilatinas. Já pelo concílio de Tours, 813, fora recomendado aos pregadores o uso no púlpito da língua vulgar, e nos centros de peregrinação, romaria ou feira surgiam jograis, um misto de saltimbancos, truões e cantores, que difundiam entre o povo e levavam até aos castelos senhoriais verdadeiras escolas de poesia em romanço.
2
Os métodos de gramática comparativa e histórica, depois aperfeiçoados pelos da geografia linguística, possibilitaram a classificação linguística das línguas românicas. É assim que entre elas se distingue um grupo oriental, em que se salientam o Romeno e dialectos do Centro e Sul da Itália; e um grupo ocidental, que abrange o Italiano setentrional, os actuais dialectos reto-romanches ou ladinos (Suíça), dolomitas (Áustria) e friulanos (Itália), e outros dois subgrupos, num dos quais avulta o Francês, proveniente da Langue d’oil medieval, enquanto no outro se encontram o Occitânico, conhecido na Idade Média por Langue d’oc (em que literariamente se destaca o dialecto provençal), o Catalão, o Castelhano e por fim, e particularizando mais, um conjunto de dialectos hispânicos ocidentais: asturianos, leoneses (em grande parte absorvidos pelo Castelhano, que deu origem ao Espanhol hoje oficial) e galego-portugueses, de que se originou o Português (e o Galego).A diferenciação destas línguas e dialectos tem sido explicada por factores vários, tais como o respectivo substrato linguístico (ou seja, as diversas línguas a que o Latim se sobrepôs), a proveniência diversa dos colonos italianos, as diversas épocas da colonização romana, as linhas de migração e comunicação económica ou outra da România. Assim, certas características do Português têm sido atribuídas à sua localização periférica na România, a uma origem italiana meridional dos seus colonizadores romanos, a um forte substrato céltico. E a tripartição do romanço peninsular já foi explicada pelas principais e sucessivas vias fluviais de penetração romana (o Elbo, primeiro, e o Guadalquivir, mais tarde), que teriam esboçado a diferenciação entre os falares ocidentais e os catalães-aragoneses, inserindo-se entre eles o Castelhano. De qualquer modo, a actual diferenciação do romanço peninsular deve-se sobretudo à forma como se fez a reconquista aos Muçulmanos, a partir de três principais pontos de arranque: a Marca carolíngea, que originou o Aragão e a Catalunha, tornando-se esta o último foco de reconquista do litoral mediterrânico; os montes Cantábricos, donde, através dos caminhos da transumância pastoril, partiam, para a Meseta central, os conquistadores de fala castelhana, influenciada por um substrato êuscaro (ou basco); e o Noroeste, de substrato céltico ou paracéltico, mais tarde sob domínio suevo e prestigiado desde o século XI pelo santuário de Santiago de Compostela, cujas forças cedo aguentaram o ímpeto muçulmano na linha do Douro, donde partiram em direcção ao Sul ao longo de antigas vias romanas relativamente separadas.
3
Na sua expansão, facilitada por uma estrutura social então mais progressiva, menos senhorial, Castela, que em fins do século VIII se reduzia a simples região fronteiriça (por isso acastelada) de Leão em contacto com os Muçulmanos, obtêm a hegemonia político-militar e depois (desde Afonso X e sua corte toledana) literária sobre Leão, e, não só absorve os dialectos moçárabes do Sul, como marginaliza pouco a pouco as falas asturianas, leonesas, aragonesas e navarresas. Discute-se muito se o Catalão se integra originariamente no romanço hispânico ou no occitânico. Mas, seja como for, a sua semelhança em relação à Langue d’oc relaciona-se com a sua situação de ponte entre a Península e o Sul de França, e ainda talvez com certas influências de um comum substrato pré-romano. Quanto ao Galego-Português, pode ter-se diferenciado (como o Leonês) de um fundo mais arcaico galego-asturiano; a tese, muito controversa, segundo a qual o Português teria assim uma origem fundamentalmente nortenha, embora recentemente reforçada por investigações linguístico-etnográficas, parece dever considerar-se como descrição muito simplificada de uma génese na realidade mais complexa. Vários linguístas salientam certos caracteres especificamente conservadores do romanço do Noroeste, e em especial do Português, relativamente ao Latim (futuro e condicional separáveis, como em amá-lo-ei, atestando a perífrase latina originária; manutenção mais tardia de certas vogais finais que, por metafonia, vieram a fechar no singular masculino a vogal tónica de palavras como porco e, em geral, persistência da gama vocálica de quatro graus de abertura do mais arcaico romance ocidental: á, é, ó, ê, ô,, i, u; infinito pessoal, resultante do imperfeito do conjuntivo latino, ou/e do uso com sujeito independente, sobretudo em orações finais; resposta afirmativa com o verbo da pergunta, em vez da partícula sintética sim). Outros apontam certas característica de uma transformação maior do que a dominante no resto da Península (evolução, anterior ao século IX, dos grupos iniciais pl-, cl- e fl- para a africada tch-, que viria a grafar-se ch-; síncope, no século X-XI, de l e n intervocálicas, o qual deixou vestígio na nasalidade da vogal anterior, o que acarretaria consequências fonológicas e até morfológicas importantes). O Noroeste hispânico foi mais tardia e imperfeitamente romanizado, pelo que manteve restos da primitiva sociedade agrícola comunitária, que ainda hoje se verificam em Rio de Onor, entre outros vestígios etnográficos. Do moçárabe (ver adiante) são assinalados certos topónimos. Entre a romanização e a reconquista das monarquias neogóticas, a Península conheceu o domínio de várias aristocracias guerreiras germânicas (Alanos, Vândalos, Suevos e Visigodos) e a ocupação muçulmana. Mas tais conquistas não alteram fundamentalmente a estrutura linguística latina.4
Quanto aos invasores germânicos, isso explica-se pelo facto de eles não constituírem mais que minorias militares, ainda próximas dos seus tempos nómadas, que acabaram por ser assimiladas pela aristocracia já estabelecida e romanizada, à qual se tinham passageiramente sobreposto. Por isso se limitaram a introduzir algum vocabulário referente, principalmente, aos seus usos típicos de guerra, vestuário e outros que, de facto, prevaleceram (o corte da roupa ocidental ainda hoje é o de origem germânica, como as próprias palavras portuguesas roupa e fato), além de nomes próprios de lugar e sobretudo de pessoas: Henrique, Afonso, Mendo, etc) . Mas muitas das palavras germânicas assimiladas pelo Português chegaram à Península antes dos invasores bárbaros, porque haviam já sido introduzidas no Latim que os Romanos aqui trouxeram (guerra, guarda, bando, elmo, feltro, etc, palavras que também se encontram noutras línguas românicas de além-Pirenéus), pelo que é extremamente escasso o vocabulário directamente introduzido por estes invasores nas línguas peninsulares.Quanto aos Árabes, portadores de uma civilização comercial e de novas técnicas agrícolas, criaram na Península centros urbanos e substituíram a aristocracia agrária anterior, impondo-se de facto à massa rural peninsular. Conservaram, portanto, com a sua civilização superior, a sua língua, sem eliminar a língua e a religião do povo dominado, dando lugar a uma situação comparável à que existiu em Inglaterra durante algum tempo após a invasão normanda, com a sua língua de corte (Francês) e a sua língua rural (Anglo-Saxão). Chegou a haver um começo de interpenetração das duas línguas, principalmente nos centros urbanos, de que resultou o Moçárabe, fala popular de estrutura romântica mas com numeroso fundo de vocabular arábico – fenómeno que lembra também o da assimilação pelos Anglo-Saxões de um considerável vocabulário francês, na origem do inglês moderno. O domínio árabe foi todavia pouco duradouro em grande parte da Península, e superficial mesmo em certas regiões politicamente muçulmanas. Por isso, da sua língua, tão estranha ao Romanço, não ficou qualquer influência notável de estrutura morfológica ou sintáctica, mas sim um vocabulário de certo vulto, relativo à vida económica e administrativa em que sobressaem nomes referentes a novos cultivos, técnicas e instituições introduzidas pelos Árabes (azeite, arroz, algodão, azenha, nora, açúcar, açorda, alferes, alcaide, algarismo, armazém, almude, álcool, etc), e a curiosa expressão oxalá (= «queira Deus»), além de certos vestígios arcaizantes do moçárabe, como a manutenção de l e n intervocálicos em Mértola, Beselga, Fontanelas, etc. É curioso notar que a diferenciação do romanço ocidental, anterior à Reconquista, quase coincide com a área de uma civilização megalítica, neo- e calcolítica, de infiltração litoral, que decai depois do advento do Ferro com os Celtas e, depois, com os Romanos.
História da Literatura Portuguesa
A. J. Saraiva, Óscar Lopes
Porto Editora







Parabéns!! Em poucas palavras consegue contar a História da Língua Portuguesa
Obrigado pelo seu comentário, Vanda Cavaco.
Os créditos do texto são todos dos Historiadores e Linguistas portugueses António José Saraiva e Óscar Lopes.
Cumprimentos – Carlos Pereira