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Evolução da Língua Portuguesa

 

Colocado por em Abr 10th, 2010 na(s) categoria(s) Fotos, Língua, Videos. Pode seguir todos os comentários a este texto através de RSS 2.0. Pode comentar ou fazer trackback deste texto

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Dos fins do século IX até inícios do século XIII, que é de quando datam os textos redigidos em Português de maior antiguidade indiscutível, quer notariais (Notícia do Torto, talvez anterior a 1211, o testamento de D. Afonso II, 1214, e dois documentos do Mogadouro, que Lindley Cintra descobriu e estava a estudar quando morreu), quer literários (cantigas de João Soares de Paiva e de D. Sancho I, de cerca de 1200, pois se provou ser-lhes posterior a cantiga da garvaia de Paio Soares de Taveirós), decorre a fase proto-histórica do nosso idioma, isto é, aquela que só se pode reconstituir por métodos histórico-comparativos ou à base de documentos «em Latim Bárbaro» (texto mais antigo: fundação da igreja de Lordosa, 882).

O núcleo a partir do qual se difundiu o português situa-se no Noroeste, entre o Douro e o Minho (anteriormente, o Lima) a terra portucalense, do nome da terra dominante, Portucale. É uma região agrícola excepcional, pelo clima e outras características – um centro de população expansiva e em que, nos séculos IX e X, se destacaram vários condes de famílias rivais, como Mendo Gonçalves, Nuno Mendes, Gonçalo Mendes da Maia, etc., enquanto em Coimbra, zona ainda muito moçárabe, se distinguia D. Sesnando. Depois de ele morto, D. Afonso VI entregou a um conde francês, D. Henrique, os dois territórios doravante portugueses, de que o novo conde se encarregou de prolongar a conquista para o Sul e para a região a leste do Tua e do Coa, de influência leonesa e moçárabe (e de clima mais continental); e desses factos e seus decorrentes há documentos latinos, modernamente chamados Annales Portucalenses Veteres (Pierre David), que foram acontecimentos de 987 a 1079, prolongados até 1111, e até 1168, com um certo sentido autonomista: a reconquista liga-se à imposição do novo ritual romano, por diligência de Cluny e à propagação da reforma de Gregório VII. Desde cerca de 1131, Coimbra torna-se lugar da residência régia, com o Mosteiro de Santa Cruz a servir de registo e de panteão; nos selos e símbolos reais, o nome Portugal ganha primazia sobre os dos reis, que entretanto, ao longo dos séculos XIII e XIV, transformam a nobreza territorial em nobreza de corte, até que as principais funções de capital são transferidas para Lisboa, com o seu centro escriturário e bibliotecário em Santa Maria de Alcobaça.

 

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Desde fins do século XII até cerca de meados do século XVI, em que o Português começa a sujeitar-se a uma disciplina gramatical e escolar, decorre o seu período chamado arcaico, embora o seu arcaísmo de então seja muito menor que o do Francês nos seus mais antigos textos conhecidos do século IX. De início, a reconquista do Ocidente peninsular traduziu-se, linguisticamente, por uma expansão para o Sul da fala galega e da sua aparentada de Entre Mondego e Minho, à custa dos falares moçárabes, que o domínio árabe influenciara lexicalmente e, isolando-os, mantivera uma estrutura gramatical mais próxima das origens latinas. Mas a formação de condados e depois de um reino aquém-Minho, a sucessiva consolidação da sua fronteira na linha do Mondego e depois na do Tejo, por fim a conquista do Alentejo e do Algarve, a centralização do Estado monárquico em Lisboa, que se tornou mais efectiva na dinastia de Avis, fizeram sobrelevar à influência nortenha da conquista e colonização agrícola a influência meridional dos novos centros políticos e administrativos. É possível, por isso, distinguir no período arcaico da língua portuguesa uma primeira fase, até cerca de 1385 (e portanto coincidente, como veremos, com a fase inicial da literatura, que se concretiza pela preponderância do Galego, cujo prestígio e uso literário se estendia então até à própria corte régia castelhana), e uma segunda fase desde então até aos primeiros gramáticos do Português (Fernão de Oliveira, 1536, e João de Barros, 1540). Das primitivas interpenetrações dos dialectos peninsulares do Ocidente restam ainda hoje, no distrito de Bragança, algumas bolsas dialectais a atestar colonizações leonesas (dialectos das comunidades mais arcaicas de Miranda do Douro, Rio de Onor e Guadramil).

A partir de meados do século XIV, o Português comum e literário resulta de uma rápida fusão e evolução linguística realizada sobretudo em Lisboa, com grande influência dos dialectos meridionais, que deu à fronteira portuguesa certas características talvez moçárabes. Se já nas cantigas de D. Dinis, por exemplo, de fins do século XIII, se observam alguns traços distintos relativamente ao Galego, por inícios do século XV os próprios poetas da Galiza estão sensivelmente castelhanizados, e a sua fala, antes tão florescente, transforma-se em dialecto arcaizante de uma província de Castela. O dialecto interamnense (isto é, de Entre Douro e Minho) cedo fez, também, figura de arcaico, e por início do século XVI Gil Vicente atribuía aos camponeses da Beira o linguajar que usava como nota cómica de rusticidade, à maneira daquilo que no teatro espanhol se fazia então com o leonês.

Com efeito, a língua portuguesa passara desde cerca de 1385 até à sua época pré-clássica, ou média, já no século XVI, por uma rápida evolução fonética. No decorrer dela assistimos aos seguintes fenómenos, entre outros:

 

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1) Uniformizam-se, já por inícios do século XV, diversas terminações nasais, que convergem no ditongo -ão, um dos fonemas mais típicos do idioma português moderno; manum > mão (dissílabo) > mão (monossílabo); panem > pan > pão; leonem > leon > leão; multitudinem > multidõe > multidn > multidão; sunt > son > são. Discute-se ainda o processo desta convergência, num aliás rico sistema de vocalismo nasal originado pela queda arcaica do -n- intervocálico. Notemos que, quando se trata de nomes no singular, os respectivos plurais mantêm-se diferentes: -ãos, -ães, -ões correspondem, em geral às terminações latinas -anos ou -anus; -anes; e -ones ou -udines, respectivamente.

2) Numerosos hiatos, provenientes da queda de consoantes sonoras intervocálicas do Latim, acabam por contrair-se, fenómeno que já principia a verificar-se hesitantemente na métrica trovadoresca e que a convenção gráfica mascara durante bastante tempo; outros hiatos (nomeadamente -êo e ôa) serão desfeitos pela epêntese da semivogal que grafamos como i: credere >creer > crer; populum > poboo > povo; foedum > feo > feio; cenam > cêa > cea > ceia.

3) Modificam-se os timbres vocálicos de certas terminações, que então ainda se pronunciavam abertas ou fechadas consoante a origem latina: comparativos sintéticos do tipo de melhor e maior, que tinham o o fechado, passam a tê-lo aberto; nos pronomes eu, meu, teu, seu e em deus o ditongo, anteriormente aberto (éu) fecha-se (êu), à maneira de formas verbais como sofreu.

4) As terminações verbais da segunda pessoa do plural em -ades, -edes, -ides ou -ade, -ede, -ide estão no século XV reduzidas: amades e amade dão amais, amai; devedes e devede dão deveis, devei; partides e partide dão partis e parti.

5) Uniformiza-se a pronúncia de certas sibilantes que a convenção gráfica ainda hoje distingue e que se mantêm distintas em certos dialectos; o x de enxada tinha o valor actual, mas o ch de sacho valia tch, pronúncia nortenha que os gramáticos seiscentistas ainda recomendam; o s simples ou dobrado não se pronunciava como no Português padrão de hoje, em que se confunde, ora com o c antes de e ou de i, ora, na posição intervocálica, com o z; em servo, saber, passo e, por outro lado, em cousa, as sibilantes tinham um valor mais aproximado de ch e j, respectivamente, valores que ainda conservam em certas zonas nortenhas, ao passo que o c antes de e ou i (cervo, cima) o ç e o z, que já no século XVI se pronunciavam como hoje, tinham sido pronunciados até então como consoantes africadas, respectivamente ts e dz.

 

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Sob o ponto de vista morfológico, verifica-se, nomeadamente:

1) A biformização quanto ao género dos nomes terminados em -or, -ol e -ês (senhor, espanhol e português, por exemplo, podiam, antes, ser do género feminino).

2) A generalização do género feminino aos nomes em -agem (bom linhagem, diz ainda Fernão Lopes).

3) A sobreposição de um sistema ternário de demonstrativos este, esse, aquele (isto, isso, aquilo) a um sistema binário com redundâncias (este/aqueste ou esto/isto, oposto a aquel(e) e aquelo, ainda não estando esse ligado à 2ª pessoa).

4) A eliminação dos possessivos femininos ma, ta, sa, dos pronomes e adjectivos interrogativos cujo e quejando, e de outras formas como omem (cf. Francês on), i (aí) en ou ende (daí, disso), da partícula enfática er ou ar, da conjunção causal, comparativa ou integrante, ca, etc.

Sobre o ponto de vista sintáctico, desaparecem, entre outras, certas construções partitivas e a dupla negação que o Francês manteve, o gerúndio com regência prepositiva como em Inglês (sen teendo), a frequência de anacolutos e de outras construções logicamente frouxas. Torna-se desde o século XVI mais frequente a anteposição do artigo definido aos possessivos (o meu).

Esta evolução processa-se mais ou menos espontaneamente, pelo jogo dos factores histórico-sociais apontados, mas há um aspecto, o da uniformização e padronização de variantes linguísticas, que decerto corresponde a uma intenção preparatória da posterior codificação gramatical. Factos como a organização escolar eclesiástica e universitária, a praxe de redigir os diplomas oficiais e notariais em língua portuguesa por imposição da chancelaria régia desde o reinado de D. Dinis, a multiplicação das traduções para português que desde então se verifica na corte e nos institutos religiosos – devem ligar-se com a racionalização e polimento do idioma. O estudo do Latim eclesiástico e, desde o século XV, o do Latim clássico contribuem para a disciplina da língua portuguesa. Já no Cancioneiro Geral, de finais desse século e inícios do século XVI, é visível uma latinização que principia por ser meramente gráfica mas acaba por tornar-se fonética, e de que resultará a sobreposição de formas eruditas como inveja, virtude, acto, glória, consciência às formas mais espontâneas enveja, vertude, auto, grórea, conciência. Esta latinização, que afecta sobretudo o vocabulário mais culto e dá lugar a formas divergentes, opera-se principalmente com o Humanismo e com o ensino jesuíta posterior.

 

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Aos séculos XVII e XVIII pouco resta a fazer, morfologicamente, isto é, na estrutura fundamental do idioma, para se atingir a configuração do Português moderno: a biformização, quanto ao número, da forma pronominal lhe (aliás ainda hoje invariável na fala rural), segundo uma tendência de resto já medieval; a eliminação no uso oral do auxiliar haver como alternante de ter; o desuso do mais-que-perfeito do indicativo com o valor de imperfeito do conjuntivo ou de condicional (eu o fizera, se pudera), e pouco mais. Sob o ponto de vista fonético, é então que o s e o z finais adquirem a actual pronúncia palatal dominante, em vez da fricativa dental que se mantêm em certas regiões do Brasil; que o ch perde a sua africação em tch; que o pretónico (por exemplo: em comer) acaba por tornar-se equivalente a um u átono. Révah e Herculano de Carvalho discutiram (1959 e 1962-63) até quando se teriam mantido os valores ô e ê do o e e átonos finais, que o Galego ainda hoje conserva, sendo de crer que eles existissem, embora oscilantemente, até ao século XVIII. Em contraste com a fala brasileira, inicia-se então em Portugal um processo de alteamento e/ou recuo articulatório e até emudecimento da vogais átonas. O r velar principiará só em fins do século XIX a sua erradicação, ainda hoje em curso, à custa do r apical, e entretanto o e fechado origina a fechado na pronúncia lisboeta de expressões como dei, vejo, fecho, telha e na terminação -em, anteriormente não ditongada.

Pode, em resumo, dizer-se que por meados do século XVI está concluído o essencial desta evolução, que é principalmente fonética, como vimos. O século XV serve de charneira às transições mais importantes: é vulgar encontrarmos em Fernão Lopes, D. Duarte, D. Pedro e, depois, no Cancioneiro Geral, formas e construções arcaicas ao lado de outras modernas.

 
 

História da Literatura Portuguesa
A. J. Saraiva, Óscar Lopes
Porto Editora

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4 Comentários para “Evolução da Língua Portuguesa”

  1. Emília Carolina diz:

    Nossa, como um simples vídeo mostra tanta coisa!!! Estava fazendo um trabalho sobre português e vocês me mostraram tudo o que eu precisava!!!
    Muito obrigada mesmo… Continue assim!!!
    Mudou a minha opinião sobre o “português”…!!!
    Parabéns pelo trabalho e pela vontade!!!
    Todo o mundo deveria assistir a esse vídeo…

    • paralaxe diz:

      Obrigado pelo seu comentário, Emília.

      Espero que também tenha aprendido alguma coisa com o texto!

      Cumprimentos,
      Carlos Pereira

  2. Daniel Pedro diz:

    Emília, é claro que este vídeo ensina muita gente que ainda não consegue descobrir verdadeiramente a evolução da nossa língua.

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