Anos e anos a carretar leite, vila vai, vila vem, aborridos seus olhos de andar a rastos pela invariável fita do caminho, o cavalo do Cleto arriou. Era lento e preso da marcha, como se o arcabouço deprimido empreendesse fundir-se no repouso aliciador da terra. Tinham-lhe nascido alifates nos tendões e nas jogas, e com a gangrena das suas mataduras embebedavam-se as moscas de dez aldeias. À sobreposse, lá continuava a fazer a romaria quotidiana, saindo da loja com o cantarmatutino dos galos, para volver quando os bois remoíam nos estábulos a erva dos pastos.
Descansava então umas horas num sono quebrantado de pesadelos, em que havia guerras de cavalos e precipícios a atravessar com cargas descomunais.
Os próprios jericos maviosos eram mais lestos do que ele. E, de vê-lo
assim ronceiro, o dono não parava de o espertar com a chibata ou tirar-lhe
pela cadenilha bramando:
– Arre! Não deixarás as rezas para a loja, excomungado!?
Uma manhã, afinal, que os cântaros cheios pediam besta de fôlego, deu com a carga no chão. O Cleto, ao ver o leite vertido, saltou nele às arrochadas. Bateu, bateu até lhe doer o braço e lascar o pau. Mas o cavalo, por mais esforços que fizesse, soltando roncos e escabujando, não conseguiu firmar-se nos curvilhões. Puxou o Cleto pela cabeçada, pelo rabo, pelas orelhas: ele fincou os cascos, lavrou mais de uma vez o solo, e desfalecido, inerte, abateu para o lado, a dentuça em arreganho a filtrar uma baba sanguinolenta.
Patinhando na terra empapaçada de leite, decidiu-se o Cleto a desaparelhá-lo.
Ao barulho das latas, os pastores assomaram pelos barrocais, e gritou-lhes:
– Botai aqui a mão, rapazes!
Acudiram daqui, dalém, com a gaita no surrão e a cacheira no ar; e uns pela rabadilha, outros pela samarra, puseram o cavalo em pé. O Cleto animou-o,
e reajustando o aparelho e tampando os potes, tangeu-o com brando jeito:
– Anda lá … anda, alminha do Senhor!
Entesando-se, todas as energias crispadas no arranco, começou o cavalo a andar. Mas o seu passo era titubeante, aos torcilhões, tem-te-não-caias.
– Vai a ensaiar o sarambeque – disse um pastor.
– Não bota à vila! – sentenciou outro em tom de reprimenda ao gracioso.
O Cleto engalfinhou-lhe os dedos pelas clinas a ampará-lo.
Mas breve as pernas lhe fraquejaram, sacudidas de tremor, e ajoelhando com brusquidão desabou para a banda, desamparado, como se o estatelasse um raio.
O Cleto sovou-o a pontapés, arrepelando-se e chamando-se um desinfeliz da sorte.
– Vá por besta, tio Cleto! – aconselhou um dos rapazes.






