Anteriormente a Fernão Lopes, deve falar-se de uma literatura de língua portuguesa (inicialmente galego-portuguesa) dentro do âmbito de uma cultura peninsular. Se há na Idade Média uma literatura ibérica de raiz autónoma em relação à do resto da Península, é a literatura catalã, intimamente ligada (até por afinidade linguística) à cultura occitânica de além-Pirenéus. A literatura peninsular em língua portuguesa e galego-portuguesa foi cultivada na corte de Fernando III e sobretudo na de Afonso X, o Sábio, reis de Castela e Leão, e seus sucessores. Mas é a personalidade política portuguesa, são as cortes dos seus reis, os mosteiros de Santa Cruz e Alcobaça que lhe asseguram continuidade.Como vamos ver em pormenor, algumas das obras que geralmente se incluem no património literário português medieval são produzidas noutras regiões da Península, como sucede com grande parte das composições dos Cancioneiros primitivos, e com as Cantigas de Santa Maria de Afonso X, o Sábio; outras, são obras de portugueses sobre matéria de interesse para toda a Península, caso da Crónica Geral de Espanha de 1344; outras, ainda, foram veículo, dentro da Península, de correntes literárias transpirenaicas, caso da tradução do ciclo do Graal, depois retraduzida para castelhano. Há o caso de um texto cuja nacionalidade se discute e que é produto de uma cultura peninsular comum, podendo indiferentemente ter nascido em português ou castelhano: a primeira versão do Amadis de Gaula.
O período aqui considerado ainda, portanto, não se diferencia integralmente como fase da história literária portuguesa; trata-se de uma literatura que a precede e prepara, de língua portuguesa mas em certo sentido regional, dentro da Ibéria.
A literatura portuguesa pode considerar-se emancipada com o advento da dinastia de Avis. Inicia-se então a prosa doutrinal portuguesa original com D. Duarte e uma historiografia nacional com Fernão Lopes. Mas até ao século XVIII, as relações entre a literatura castelhana e a portuguesa serão tão íntimas, que alguns dos mais notáveis escritores portugueses, como Gil Vicente, Camões, Sá de Miranda, D. Francisco Manuel de Melo, ilustram as duas línguas, prolongam a sua influência em ambos os lados da fronteira e pertencem, por isso, a ambas as literaturas. No século XVI a palavra «Espanha», tal como a empregam, por exemplo, João de Barros e Camões, servia para designar o conjunto peninsular em que os Portugueses se consideravam incluídos, e essa acepção mantêm-se até ao século XVIII.
História da Literatura Portuguesa
A. J. Saraiva – Óscar Lopes
Porto Editora






