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IILP lança Colectânea de Literatura Oral Lusófona

Colocado por em Ago 21st, 2010 na(s) categoria(s) Fotos, Literatura. Pode seguir todos os comentários a este texto através de RSS 2.0. Pode comentar ou fazer trackback deste texto

 

O Instituto Internacional de Língua Portuguesa (IILP), que tem a sua sede na cidade da Praia, em Cabo Verde, acaba de editar a colectânea “Literatura Oral”. Coordenada pela sua directora-geral cessante, a linguista angolana Amélia Mingas, “Literatura Oral” tem uma substância pedagógica de suma importância.

O conjunto articula cinco publicações, totalizando meio milhar de páginas, que realçam os provérbios de todo o espaço lusófono, por um lado, e adivinhas, por outro.

Fogueira.jpg São “livrinhos” sobre os contos de Angola, do Brasil e de Portugal, projecto que vai ser contínuo e que cobrirá, naturalmente, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique e Timor.

O conjunto de cinco volumes teve a colaboração de uma meia centena de especialistas, entre linguistas, antropólogos e historiadores que pertencem a instituições como a Universidade Agostinho Neto, a Universidade Federal do Rio de Janeiro, o Instituto Nacional da Cultura de Cabo Verde, o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas da Guiné-Bissau, a Universidade Eduardo Mondlane, de Moçambique, e do Fundo das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco).

Saliente-se, entre as personalidades que colaboraram nesta iniciativa, o escritor são-tomense Alberto Bragança e o padre linguista timorense Luís António Sarmento da Costa. O destaque recai, ainda, sobre o desenhador português Alex Gozblau, que deu vida aos diferentes fascículos da colectânea.

O livro foi apresentado ontem, em Luanda, em simultâneo com a revista “Kulonga”, no Instituto Superior de Ciências de Educação (ISCED).

As três linhas de força

A primeira é a escolha do património posto em evidência, as tradições orais, aqui em três modalidades de expressão, nomeadamente “provérbio”, “adivinha” e “conto”.

Esta opção foi absolutamente pertinente, porque esta herança constitui um dos primeiros legados das civilizações. Com efeito, todas as culturas do mundo se desenvolveram tendo por base codificações orais.

A descida às origens desemboca, inevitavelmente, no verbo inicial tradicional tendo, portanto, posto em evidência este domínio cultural, presente em África, na América do sul, na Europa e na Ásia.

O Instituto lusófono insistiu numa dinâmica que foi, igualmente, a da Organização da Unidade Africana e que a União continua, que, com a parceria de diversas instituições nacionais e internacionais, se empenhou a fundo na revalorização das tradições do continente, implementando programas de documentação física e digital, projectos de investigação científica e de animação cultural, e criando instituições como o “Celhto”, em Niamey, no Níger, o “Eacrotanal” em Zanzibar, e apoiando o “Cerdotola” em Yaoundé, o “Ciciba” em Libreville e o “Crac” em Lomé.

Não posso deixar de referir a brochura “Tales from Gabon”, publicada a pensar nos alunos britânicos e nos filhos da diáspora, pela jornalista da BBC, em Londres, Helene Lembanaka, que me confiou a elaboração do prefácio. Angola, com todo o sentido, apoiou a edição desta colecção, através da Presidência da República e da nossa Embaixada em Lisboa.

O segundo eixo importante a reter é o público que se pretende atingir com esta colectânea: principalmente os jovens. É um grupo etário fundamental no perpetuar das tradições de qualquer civilização, porque, com efeito, a sobrevivência das tradições orais resulta, absolutamente, da transmissão.

Justo é, também, o título que o Instituto, entidade especializada da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), escolheu para que esta colectânea fosse dirigida a um público jovem, tendo em conta as realidades modernas ou contemporâneas.

Com efeito, a transmissão à volta da fogueira está hoje, sobretudo em África, na América Latina e na Ásia, em vias de extinção, consequência de um êxodo rural cada vez mais pronunciado e de uma escolarização progressivamente mais abrangente.

A obra é necessária e o IILP teve o cuidado de ilustrar, profusamente, todas os volumes, com vista a torná-los atraentes e de fácil leitura. Os alunos do espaço lusófono não têm, portanto, qualquer desculpa para não lerem esta antologia.

A terceira linha de pertinência da compilação é o contexto comparativo das tradições que é proposto aos alunos do espaço intercontinental. Eles podem facilmente apreciar as similitudes metafóricas entre os “ikuma ni mianda”, cokwe, os “sabu”, kimbundu, os “nsavu”, kikongo, os “sanu”, changana, os “vessu”, forro angolar e minu ie, os ditados “macaenses”, ibéricos, “balanta”, papel, “tetum e tupi”.

Vão experimentar, igualmente, as analogias entre os “zibwila ngoyo”, os “lupolwei nyaneka-humbe”, os “dibinha cabo-verdianos”, os “dibinha sertu guineenses”, os “zambu ronga” os “aguede ale santomenses”, os “buat sa”, “sa los”, as “charadas” afro-brasileiras e os “enigmas” ibéricos.

Por fim, vai ser dada atenção às semelhanças entre os “lunganga solongo” e os contos afro-paulistas e os da Península.

Esses alunos, no despertar pedagógico estruturante, também serão sensíveis à convergência dos importantes valores morais que sugere esta vasta trama oral.
Nela se encontram centenas de qualidades antropológicas, como as ligadas à lealdade e à força da amizade, “la bondade”, a confiança, a dignidade, o ter em conta a experiência, a defesa da liberdade, o bom uso da inteligência, o sentido da justiça e da disciplina, a humildade, a capacidade de adaptação, a tolerância, a prudência, o sentido das responsabilidades, o valor do trabalho, etc.

Em conclusão, pensamos que os elementos que acabámos de evidenciar atestam a importância da “Colectânea de Literatura Oral do Mundo da Fala Portuguesa”, que deve continuar a ser consultável na sua edição on line e ter, inevitavelmente, uma versão audiovisual.

Essas perspectivas consolidarão, sem dúvida, a contribuição da colectânea, a dinâmica ligada à salvadora maior aproximação das Culturas do mundo, caminho indicado, este ano, pelo Fundo das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco).

Fonte: Jornal de Angola – 21/08/2010

Categories: Fotos, Literatura
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