Há igrejas onde se vai num domingo e se passa alguns momentos. E há igrejas onde se vai e se pode passar toda a tarde confraternizando com outros paroquianos. A Igreja de Nossa Senhora da Assunção em South Sixth Street, em New Bedford (EUA), é definitivamente do segundo tipo.
Não é exagero dizer que OLOA, como é referida na cidade, tem sido o verdadeiro coração da comunidade cabo-verdiana em New Bedford há mais de 100 anos. E hoje, com a sua fachada simples de tijolos vermelhos, discretamente situada no centro histórico do bairro sul da cidade, comemora o seu 105º aniversário, no qual se reunirão entre 400 a 500 pessoas para celebrar missa às 10h00 e festejar das 11h00 até às 14h00.
Os descendentes de cabo-verdianos e os seus amigos estarão a comemorar não somente um local de alimento espiritual, mas também as próprias raízes cabo-verdianas. “É sobre a família”, diz Henry “Rickey” Barros, que montou na quinta-feira passada uma exposição de slides da história da igreja.
Embora a família de Henry Barros esteja envolvida com a OLOA há décadas – a casa paroquial tem o nome da sua falecida irmã, Lucille Ramos – Rickey diz que as pesquisas que fez para as comemorações foram uma revelação para ele. Rickey sabia que a equipa de basquetebol da OLOA conseguiu, em dada altura, vencer 122 jogos seguidos; mas não sabia que a igreja chegou a ter uma equipa de beisebol.
A mostra de slides de Rickey Ramos – que será exibida no porão da igreja – irá mostrar que esta comunidade, em grande parte da classe trabalhadora, conseguiu juntar cerca de 150.000 dólares para a construção do novo templo em 1957. O anterior, de madeira, estava localizado na South Water Street – quem estiver em Monte Park e olhar para o rio Acushnet localiza facilmente a área.
A Igreja de Nossa Senhora da Assunção original esteve à beira-mar durante 52 anos e foi atingida pelos furacões de 1938 e de 1954. Neste último, tiveram de utilizar embarcações para salvar os paramentos. Em 1957, fizeram uma grande procissão quando se mudaram da South Water para a South Sixth Street. A paróquia, que tem a primeira igreja católica romana da América, está no novo local há 53 anos, praticamente o mesmo tempo que esteve na antiga localização.
A mostra de Barros inclui alguns dos marcos dos 105 anos de vida da igreja, como a construção, na década de 1940, de uma estátua de São Nicolau Tolentino para o povo de Cabo Verde. João Baptista, um paroquiano, tinha comprado uma estatueta talhada à mão do santo medieval italiano – santo padroeiro da cidade cabo-verdiana de São Domingos, na ilha de Santiago – com 400 anos. Os paroquianos construíram a estátua com base nesta miniatura.
Em 1905, o primeiro bispo da Diocese de Fall River, William Stang, agregou a paróquia cabo-verdiana de New Bedford à Ordem Missionária da Congregação do Sagrado Coração de Jesus e Maria. No entanto, a comunidade cabo-verdiana passou tempos difíceis no início do Século XX. Os cabo-verdianos e seus descendentes não eram bem aceites em algumas igrejas da cidade, devido à segregação racial vivida na época.
Um dos membros mais famosos da congregação é o padre Damien – agora São Damien – um sacerdote belga que acompanhou e confortou leprosos no Havaí. A ordem está na OLOA desde o convite do Bispo Stang.
O padre Chris Santangelo, o actual pastor, diz que muitos dos imigrantes cabo-verdianos têm uma relação de sangue, o que confere à paróquia uma identidade familiar. Assim, a igreja esforça-se por manter esta forte identidade, realizando programas para os jovens que os sensibilize a permanecer na comunidade e na congregação. “É um trabalho permanente”, reforça o padre Santangelo.
Cherie Ramos, responsável pela angariação de fundos da igreja, diz que a OLOA – cujos serviços incluem um pouco de música rock e percussão – tem o seu próprio estilo. É terra-a-terra e informal. “É uma igreja de abraço”; “Somos todos família, parentes ou não”, completa.
Fonte: Jack Spilane – South Coast Today






